Uma operação de miopia literalmente mudou a forma como Rute Arcari enxergava o mundo. Decidida a fazer tudo o que lhe dava prazer, ela migrou para o mundo das lentes e se consagrou como a única mulher de Porto Alegre a registrar casamentos. Conheça mais sobre Rute Arcari nesta entrevista publicada originalmente na nona edição da Inesquecível Casamento Rio Grande do Sul.
Texto: Tatiana Guedes
No vocabulário da fotógrafa Rute Arcari, a palavra determinação é uma constante. Há 20 anos, ela chegou a Porto Alegre para ser operada de uma avançada miopia. Após o sucesso da cirurgia, veio a vontade de fazer tudo o que mais gostava. Em apenas seis meses, entrou para a faculdade de Artes Plásticas e casou com o amor da sua vida e atual sócio, Marco Arcari. Com o estímulo dele, migrou das telas para o universo fotográfico, onde ganhou notoriedade ao se tornar a única mulher da cidade a clicar casamentos. Registros reconhecidos graças ao seu olhar espontâneo, apaixonado e, acima de tudo, feminino. “Através das minhas lentes, quis evidenciar os detalhes que eu nunca havia enxergado”, revela.
Revista Inesquecível Casamento: Quando ocorreu o seu primeiro contato com o universo da fotografia?
Rute Arcari: Foi como a maior parte dos fotógrafos amadores – pelas fotos de viagens e de família. No curso de artes plásticas, minha história com a fotografia ainda não estava escrita. Quando peguei uma câmera totalmente manual, o resultado foi o que se pode chamar de tragicômico. No primeiro dia, coloquei o filme na máquina e segui para a aula, que infelizmente estava em greve. Neste momento, tive que me virar sozinha. Entrei em um parque e cliquei tudo que passava. Porém, a maior surpresa veio com a revelação do filme: não se via quase nada, uma catástrofe! Desde então, busquei muitos livros sobre o assunto e estudei durante os meses de greve. Logo que retornaram as aulas, me tornei a monitora da turma. Sem falsa modéstia, sempre lutei por tudo o que quero, não sou de ficar esperando os outros ou imitando ideias já existentes.
Em 1995, meu marido me presenteou com um scanner, para que eu manipulasse as imagens no computador. Comprei um livro sobre o assunto com, no mínimo, mil páginas e estudei uma por uma. Assim, quando começaram as lições, o professor me mandou voltar no fim do semestre com o projeto final. “Ensinar mais o quê?”
Você é a única mulher da cidade a fotografar casamentos. Como entrou neste segmento?
Engravidei aos 23 anos. Durante a semana ficava com meu filho e adorava fotografá-lo. Na época, usava nosso estúdio para clicar peças de artes dos colegas da faculdade. Fazia muitas fotos em preto e branco, usando meu laboratório de ampliação. Foi através dessas imagens expostas, que começamos a formar o nosso círculo de amizades e relacionamentos com os clientes. Descobri que clicar crianças não é para qualquer um, exige preparo, pois elas são muito espontâneas. Trabalhava em festa infantil à tarde e nos sábados à noite podia curtir a minha família.
Dei os primeiros passos na área matrimonial, quando minha irmã casou e pediu que eu fizesse seu álbum. Usei a mesma técnica das crianças. Claro que em casamentos existem momentos imperdíveis, mas confesso que achei muito fácil e até meio sistemático. Depois, comecei a perceber outros detalhes que me chamavam a atenção. Por ser muito ativa e inquieta, mostro isso no meu trabalho, com movimento nas imagens, sempre lembrando o aprendizado da faculdade: liberdade de expressão e ângulos exclusivos.
Qual o estilo que melhor traduz o seu trabalho?
Quando a demanda começou a aumentar, precisei de alguém para me ajudar. Então, achei que uma equipe formada por meu marido, que até então cuidava da parte administrativa, e eu – como fotógrafos principais – atrairia mais atenção dos clientes. Repassei o meu aprendizado a ele e, com isso, adotamos uma técnica única. Sabe que deu certo?
Nosso estilo é o mais espontâneo possível. Mesmo assim, precisávamos nos certificar se poderíamos nos intitular como fotojornalistas de casamentos. Por isso, buscamos a WPJA (Wedding PhotoJornalist Association), uma associação internacional de fotojornalistas de casamentos. Para mais esta conquista, nos adequamos às regras que orientam este segmento, ou seja, capturar e não construir a cena. Em janeiro deste ano, conseguimos entrar para a instituição. A partir disso, não apenas nós como também uma organização respeitada e séria, nos identifica como fotojornalistas.
Muitos profissionais se qualificam como tal, mas continuam criando a cena, se preocupam com a posição da mão e o sorriso montado. Foto para mim é um estado de espírito. Quando vou fazer as posadas, demoro no máximo dez minutos, e neste momento procuro relembrar com os noivos a emoção da cerimônia.
Neste segmento estritamente masculino, como você procura se destacar?
Existem situações em que o fato de ser mulher dá mais liberdade de circulação, por exemplo, making of em salões de beleza. O que procuro fazer é aproveitar a oportunidade para mostrar o meu trabalho. Cada cliente recebe atenção e dedicação integral da nossa parte, tanto mental quanto corporal. Preciso, por isso, manter a boa forma física e me dedicar exclusivamente para o dia do evento – eles merecem toda disposição.
Fico feliz em ouvir dos noivos, ao final do evento, o quanto superei suas expectativas. Isso, na verdade, apenas mostra que nossos objetivos estão sendo alcançados. O que é maravilhoso!
Na prática, qual a principal diferença entre o casamento clicado por um homem ou por uma mulher?
Antes de falar sobre a diferença, é importante saber o que o cliente quer do profissional. Não importa se quem está atrás da câmera é homem ou mulher. Nos meus trabalhos sempre busquei evidenciar os detalhes. Tem uma frase que falo muito para o casal: “Vocês se divertem e eu clico”. Adoro quando eles dizem que nem me viram fazer determinadas fotos.
Acredito que ter a alma feminina é um grande diferencial, pois para que um homem compreenda uma mulher é preciso que ele pense como nós. Existem detalhes no vestido ou na decoração superimportantes e se não forem registrados com os devidos efeitos técnicos passam despercebidos.
Qual o perfil dos casais que te procuram: modernos ou tradicionais?
Os nossos clientes só querem diversão e não estão preocupados em seguir os protocolos. Atendemos casais iniciando o segundo relacionamento e que querem uma festa para bater papo, dançar e rever os amigos. Eles vêm de uma maratona de reuniões, orçamentos, e no dia, desejam se libertar e se divertir até o final.
Quais são os seus projetos para o futuro?
Daqui a 30 anos, gostaria que meu filho estivesse à frente da empresa, que estamos construindo atualmente. Seria legal que os futuros clientes viessem até o estúdio através de seus pais. Tomara que todos continuem curtindo nosso estilo, a ponto de recomendar aos seus filhos.
O que você gostaria de transmitir às noivas sobre o seu ofício e o casamento?
Eu apenas diria que a fotografia é como a vida: apaixonante. O saber mais sempre me motiva, não há ninguém que saiba tanto, que não possa aprender a fazer de uma maneira diferente. Registrar casamentos me dá um prazer incalculável. Afinal casar é muito bom e estar casado melhor ainda. Agradeço todos os dias a Deus por ser tão feliz e ter a oportunidade de fazer os outros felizes…











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